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BRAMON | Personagens da Ciência de Meteoros – Parte II
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Personagens da Ciência de Meteoros – Parte II

Epicuro de Samos

Os escritos de Epicuro de Samos (341 – 270 a.C.) eram de alto contraste aos pensamentos de Aristóteles. Epicuro acreditava que o Universo era infinitamente velho e infinitamente extenso. Que este mesmo Universo seria de um imenso vácuo mas que teria um grande número (finito) de partículas sólidas, os chamados átomos. Tais “átomos” eram as partículas fundamentais de construíam tudo o que existia.

Os epicuristas ou atomistas, foram celebrados pelo poeta romano Lucrecius Carus (99-55 a.C.). Em seu grande poema “De Rerum Natura“, Lucrecius ressalta a superioridade das ideias dos atomistas sobre os conceitos aristotélicos. Lucrecius afirmava ainda que os átomos, que tinham a essência do fogo, possuíam peso e, portanto, poderiam muito bem cair na Terra, sendo como tochas no céu.

Lucrecius Carus

Diogenes Laertes, em seu “Vida dos filósofos”, fala que Epicuro dizia que as “estrelas cadentes” eram formadas por átomos de fogo liberados pela fricção das estrelas. Fica claro que Epicuro não entendia as “estrelas cadentes” como originando-se no interior da primeira esfera celestial.

Diógenes Laertes

Assim como Epicuro, Plínio – o Velho defendia que as “estrelas cadentes” não tinham origem na atmosfera. Ele escreveu em sua “História Natural” que as “estrelas cadentes” poderiam até parecer cair, mas na verdade, estando os átomos de fogo em ambiente ultra seco, acabamo por voltar à Terra em forma de fagulhas. Plínio chegou a admitir que eram possíveis algumas “quedas”. Mas ele duvidava inteiramente da capacidade de previsão de Anaxágoras, no evento do meteorito de Aegospotâmia.

Plínio – o Velho (- 112 a.C.)

Aristóteles tinha um sistema completo para sustentar suas ideias sobre a origem dos fenômenos transientes, fossem atmosféricos ou terrestres. E tudo estava compilado em seu livro Meteorologica, em 357 a.C.. E em relação ao que nos compete, em termos da área de estudo dos meteoros, as “estrelas cadentes aristotélicas” ocorrem na alta atmosfera, logo abaixo do topo da primeira esfera celestial.

Aristóteles afirmava que o Sol gerava exalações na Terra. Tais exalações seguiam o curso para encontrar seus lugares naturais dentro da esfera da região sublunar, seguindo as qualidades: quente/frio e seco/úmido. Assim, exalações secas e quentes subiriam ao topo dos céus, enquanto o frio e o úmido se manteria próximo a Terra.

Considerando esta dinâmica dos vapores, Aristóteles pôs-se a explicar todos os fenômenos transientes.

Os meteoros eram constituídos de vapores quentes e secos que entravam em combustão.

Interessante é perceber que Aristóteles dividia as “estrelas cadentes” em três grupos. Divididas por características de aparência, disposição e qualidade do vapor contido na ignição.

Eram os flashes, as tochas e as estrelas cadentes, que ele chamava de “cabras”.

Nunca ficou claro o uso do termo “cabra” para os fireballs que se fragmentavam. Sabe-se que o termo original, utilizado por Aristóteles era caprae, palavra esta que originou os termos caprino e caprichoso, por exemplo. Assim, a melhor associação é que, como os fireballs eram imprevisíveis, Aristoteles quis apelidá-los de cabras, por seu caráter errático e aleatório.

Um dos fatores que levaram à durabilidade do modelo aristotélico para os meteoros foi de que as “estrelas cadentes” eram fenômenos bem pouco recorrentes e somente mais vistos na alta madrugada. Além do fato de que as ideias de Aristóteles eram realmente atraentes para a época que não se possuía o conceito de método científico.

Quando Sêneca 3 a.C. – 65 d.C. citou as “estrelas cadentes” em sua obra “Questões Naturais”, ele derivou apenas um pouco do entendimento de Aristóteles. Mas foi o primeiro a reprovar o termo “cabra” ser utilizado para designar o que conhecemos hoje como fireball.

Sêneca (3 a.C. – 65 d.C.)

Quase mil anos após a morte de Aristóteles, o astrônomo e filósofo árabe Jabir Ibn Hayyan (721 – 813 d.C.) explicou que as estrelas cadentes eram produzidas pela ignição do ar no topo do céu e que ocorria pelo aquecimento gerado pelo Sol.

A influência de Aristóteles ainda era muito forte. E é curioso notar como os astrônomos árabes, mesmo sem interesse em explicar o fenômeno dos meteoros, eram muito eficientes em anotar todas as ocorrências possíveis dos mesmos. Isto se devia por conta da associação de uma intensa chuva de meteoros e a primeira revelação do profeta Maomé.

Na Europa, os conceitos aristotélicos foram moldados para servir de suporte às bases da doutrina religiosa. Desta modo, as explicações “científicas” encaixavam nos preceitos bíblicos e clericais.

Henry de Langestein (1325 – 1397) publicou estudos onde afirmava que Deus havia dado as condições para o surgimento das “estrelas cadentes” no terceiro dia da criação. As estrelas fixas surgiriam somente no quarto dia.

Willliam Caxton (1422 – 1491)

Somente em 1480 uma nova perspectiva começou a surgir. Willian Caxton em sua enciclopédia “O espelho do mundo” que seria possível encontrar os resíduos das “estrelas cadentes”. Caxton notou que, se era possível localizar em solo tais resíduos, também deveriam existir parcelas do meteoro ao longo de sua trajetória.

Algumas Refências:

  • Seneca, Questoes Naturais, Volume VII. Século I.
  • Caxton W. Mirror of the World. Early English Text Society. Oxford, Oxford, 1480

 

Personagens da Ciência de Meteoros – Parte I

Imagens sob licença CC 3.0. Pesquisa, tradução e edição: Lauriston Trindade*

*Lauriston Trindade é graduando em Física pela Universidade Estadual do Ceará. Integrante da BRAMON desde 2015. Co-descobridor de chuva de meteoros e membro da International Meteor Organization (IMO).

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