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BRAMON | Aguas Zarcas – Meteorito histórico cai na Costa Rica
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Aguas Zarcas – Meteorito histórico cai na Costa Rica

A noite de 23 de Abril de 2019 foi muito especial para os costarriquenhos. Um grande bólido foi visto de diversas localidades em todo o país por volta das 21 horas horário local.

Enquanto a maioria das pessoas ainda tentavam entender o que haviam visto, na periferia de Aguas Zarcas, uma mulher que nada vira, porque assistia TV naquele momento, ouviu um forte estrondo vindo dos fundos de sua casa. Ela baixou o volume da TV e foi até a parte de trás da casa, onde encontrou um buraco telhado de zinco, parte do madeiramento quebrado e alguns fragmentos de rocha espalhados sobre o chão de concreto. Era o primeiro fragmento de um dos mais importantes meteoritos dos últimos tempos, o meteorito Aguas Zarcas.

Já pelas primeiras imagens do fragmento que atingiu a casa em Aguas Zarcas, ficava evidente que se tratava de um meteorito carbonáceo, uma classe rara de meteoritos, provavelmente oriunda de núcleos cometários e de extrema importância no estudo da formação do sistema solar e até mesmo da origem da vida na Terra.

O bólido

Era uma noite relativamente limpa, poucas nuvens cobriam algumas áreas da Costa Rica. Por isso, quando ocorreu o bólido, ele foi visto e registrado por várias câmeras de segurança e veiculares de diversos pontos do país. As primeiras imagens divulgadas na mídia foram de câmeras que monitoram a atividade dos vulcões naquela região. Todas mostrando a intensidade do clarão gerado pela passagem atmosférica e uma delas, mostrava o próprio meteoro. Já a partir dos primeiros vídeos foi possível perceber algumas características desse bólido: ele era lento, muito inclinado em relação ao solo, extremamente luminoso e teve uma notável fragmentação final.

Veja, no vídeo abaixo, algumas das imagens do bólido e dos meteoritos resgatados:

Análise da trajetória

A medida que surgiram mais vídeos desse bólido, a BRAMON os analisou e traçou uma trajetória do meteoro durante sua passagem atmosférica. A partir dessas análises, pôde-se concluir que o meteoro percorreu a atmosfera aproximadamente de Oeste-noroeste para Leste-sudeste, numa inclinação de 73° em relação ao solo, a cerca de 14 Km/s. O mapa com a trajetória calculada pode ser visto abaixo. O mesmo mapa foi enviado para o pesquisador Michael Farmer, que foi até a Costa Rica e conseguiu coletar diversos fragmentos de meteoritos dentro da área de dispersão indicada. A localização de alguns dos meteoritos resgatados estão marcadas com os pontos amarelos no mapa. Todos eles dentro da área de dispersão calculada pela BRAMON.

 

Os meteoritos

Não é exagero dizer que choveram meteoritos na região de Aguas Zarcas, Los Chiles e Santa Rosa. Após uma “entrada triunfal” pela atmosfera, diversos fragmentos se espalharam pela região, predominantemente rural e cerca de 27 Kg deles já foram resgatados por caçadores de meteoritos e por moradores locais.

O meteorito recebeu oficialmente o nome de “Aguas Zarcas” (local de queda do maior fragmento), e foi classificado como um condrito carbonáceo (CM2). Essa classificação indica que o meteorito se formou no início do Sistema Solar, em uma região mais afastada do Sol. Essa região era mais fria, e por isso, enquanto se formava, essa rocha foi exposta a presença de água, gelo e outros materiais voláteis. Isso fez com que seus minerais fossem hidratados e os elementos pudessem ser oxidados. Tudo isso propiciou a formação natural de grande quantidade e variedade de moléculas orgânicas, muitas delas que hoje também são encontradas em seres vivos. Na estrutura desse meteorito encontramos bolinhas de minerais chamadas côndrulos, que remetem a época de formação do sistema solar. É possível perceber que a ação da água fez com que os côndrulos ficassem menos evidentes. Além dos côndrulos, é possível ver que o meteorito tem uma matriz escura, causada tanto pela ação da água quanto pela presença das moléculas orgânicas. Por fim, na parte externa é possível ver uma fina camada também de cor escura chamada crosta de fusão, que corresponde a “casquinha” formada pelo derretimento do material quando ele atravessava a atmosfera na forma de um belo meteoro sobre a Costa Rica

Outro fato interessante é que no dia 27 de abril, menos de quatro dias depois da queda, começou a chover na Costa Rica. Para meteoritos carbonáceos, isso é um fato bastante negativo, pois a água deteriora rapidamente o meteorito, alterando sua composição química e fazendo com que ele perca grande parte do seu valor científico. Mas graças ao trabalho rápido na BRAMON na determinação da trajetória para orientação da busca em campo (o que custou algumas madrugadas de sono da equipe),  cerca de 11 Kg de meteoritos foram resgatados antes da chuva, e isso mostra a importância de um trabalho rápido e preciso. É tão importante que esse trabalho foi citado no artigo de classificação do meteorito Aguas Zarcas, publicado nesse dia 30 na Meteoritical Bulletin, pela International Society for Meteoritical and Planetary Science (Sociedade Internacional para Ciência Meteorítica e Planetária).

E para finalizar com chave de ouro, um texto em que Nelson Falsarella explica a importância dessa classe de meteoritos para a ciência.

O METEORITO AGUAS ZARCAS E A IMPORTÂNCIA DOS CONDRITOS CARBONÁCEOS CM2

Por Nelson Falsarella

Os condritos carbonáceos são uma classe de meteoritos primitivos que possui uma matriz de coloração enegrecida, rica em minerais olivinas, ferro, carbonatos e filossilicatos hidratados, que possui água ligada a minerais numa quantidade de 3 a 11%. A água foi o único metamorfismo sofrido por essa rocha, pois eles não sofreram metamorfismo térmico, a exemplo dos condritos ordinários, cujos alguns representantes demonstram derretimento dos minerais com quase desaparecimento de seus côndrulos. Os côndrulos são estruturas milimétricas arredondadas, surgidos muito provavelmente durante os episódios de fulgurações geradas pelo proto-sol, cujo calor derreteu a poeira mineral e os transformou em pingos arredondados. Os CM2 possuem côndrulos bem pequenos, de 0,1 a 0,3 milímetros de diâmetros e também inclusões refratárias ricos em alumínio, que são consideradas como sendo as primeiras estruturas a se cristalizarem no início da formação planetária do Sistema Solar. A denominação carbonácea provém da grande quantidade de carbono em sua estrutura, que corresponde a 5% e está representada através de compostos orgânicos. Os condritos CM2 são bastantes importantes devido à presença de água e também de seus compostos orgânicos.

Meteorito Murchison

Meteorito Murchison

O CM2 mais famoso é o Murchison, que caiu na Austrália em 1969. Até 2010 já havia sido identificado, através de espectroscopia mais de 14.000 tipos de compostos moleculares. Entre estes, aparecem hidrocarbonetos, ácidos orgânicos, açúcares como por exemplo, o ácido glicérico e o ácido ribonico, fosfatos, o lipídeo 5-metilnonanoico, alcoóis, amidos, fulerenos e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAH). Além desses compostos, também possui purinas e pirimidinas, que serve de bases nitrogenadas aos ácidos nucleicos e mais de 100 aminoácidos, cuja maioria possui orientação molecular surpreendentemente levógira e dessa forma, são semelhantes aos aminoácidos encontrados em seres vivos. São compostos orgânicos e inorgânicos muito próximos da composição da biomassa terrestre. A ligação dos compostos moleculares orgânicos do Murchison e também de outros condritos CM2 com a vida terrestre é bastante forte.

O estudo da relação deutério/hidrogênio demonstrou que os condritos carbonáceos possuem praticamente a mesma proporção da água terrestre e por isso eles são considerados como os depositantes do manancial aquoso terrestre. Ainda podemos considerar que se eles depositaram tanta água na Terra, eles também depositaram a matéria orgânica. O acréscimo do material carbonáceo se deu através do choque dos corpos paternos dos CM2 e também do CI. Os meteoritos do tipo CI é outra classe de condrito carbonáceo, com teor aquoso que atinge 20% de sua estrutura e não possuem côndrulos e nem inclusões refratárias, eles possuem apenas a matriz, que é bem semelhante aos CM e também matéria orgânica.

Após o choque de um grande corpo com a Terra, nos primórdios existenciais do nosso planeta, cujos destroços se aglutinaram na formação da Lua, a superfície terrestre ficou totalmente desprovida de matéria orgânica e água. A posterior ocorrência das quedas dos condritos carbonáceos em nosso planeta foi determinante para formação da massa hídrica e orgânica da Terra, que deve ter colaborado com o surgimento da vida e servido como fonte bioquímica absorvida pelos seres vivos.
Alguns autores tem demonstrado que os condritos carbonáceos CI e CM são, na realidade, originados do núcleo de cometas extintos, devido a grande quantidade de água em suas estruturas e porque as evidencias demonstram que eles foram formados a grande distancia do Sol. Embora muitos cometas de longo período possuem a proporção deutério/hidrogênio diferente da água terrestre, os cometas da Família Júpiter, cujas órbitas possuem afélio próximas a Júpiter, possuem a proporção próxima da água terrestre e podem ser a fonte de meteoritos CM e CI que caem na Terra.

A grande esperança do meteorito de Aguas Zarcas é que ele possua compostos orgânicos tão importantes quantos aos encontrados no Murchison. Uma semelhança ele já revelou. A entrada do Murchison pela atmosfera gerou um cheiro atmosférico de metanol ou piridina sentida por todas as testemunhas do evento. O mesmo cheiro é sentido ao misturar o Aguas Zarcas com água, que pode indicar a presença maciça de compostos orgânicos. O melhor ainda está para ser verificado.

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